segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Formação II

Antes da nossa formação profissional vem a nossa formação académica, e, a par desta, a nossa formação cívica, moral, filosófica, religiosa... ou a ausência delas, pelo menos em certo grau!

Tradicionalmente, a formação académica visa transmitir conhecimentos considerados importantes pela nossa civilização e resulta do nosso percurso em instituições de ensino, se bem que, a partir de certo ponto, a nossa emancipação intelectual nos permite "soltar as amarras" no campo académico e sermos nós próprios a navegar no imenso "mar do conhecimento". Exemplo máximo disso são todos aqueles que estão habilitados com o grau de doutoramento (e posteriores). Nesses casos, a sua investigação pessoal permitiu ver mais além numa determinada área, contribuindo para o avanço científico dessa área do saber.

Voltando ao nosso pequenino e pobre mundo lusitano, a deficiente formação em geral é um dos principais cancros sociais. Neste momento, talvez o principal. Victor Hugo dizia, e o saudoso Prof. António Freire corroborava, que o futuro da humanidade estava nos professores primários. Como diz o ditado, é de pequenino que se torce o pepino, pelo que é bom começar a construír a nossa personalidade e o nosso edifício do saber com bons alicerces para que um dia possamos pensar livremente pela nossa cabeça... (mesmo que não sejamos doutores)

Aproveito para dizer que sempre achei curioso tratarmos profs. primários e profs. universitários por "Professor", ao invés do simples "Sr. Dr." do secundário. Claro que isto também se prende com os graus de habilitações respectivos, sendo que licenciados, praticamente só eram os do secundário. Os do básico estudavam no Magistério, e os universitários tendiam a ser doutorados. Mas fica sempre implícita uma ideia de quem, por motivos diferentes, tem um papel fulcral no ensino.

Apesar de ser inteiramente leigo na matéria, convivo com professores de vários graus que gostam do que fazem. No meu modesto entender, mas também na visão destes, a educação pressupõe assimilação de conteúdos que é testada no momento da avaliação. Facilitar a avaliação leva à não aprendizagem e, em última instância, à perpetuação das baixas competências, relacionáveis directamente com a baixa produtividade da mão de obra nacional. Ora, como se sabe, baixa produtividade é sinónimo de pouca competitividade neste mundo global, que, por sua vez, leva a pouca geração de riqueza. (quer seja por não atrair investimento que se desloca para países de mão de obra igualmente barata mas mais instruída e produtiva, quer seja pela não optimização da força de trabalho das empresas existentes).

Paralelamente, e voltando ao início deste texto, acredito que a formação cívica e moral de um povo influencia directamente a qualidade da sua participação social e política, contribuindo também desse modo para um melhor futuro conjunto. A educação e formação de uma pessoa não devem ser meramente técnicas.

Hoje, assistimos a um fenómeno não verificável até alguns anos atrás, que prova que o ensino tem muitas debilidades e também que a nossa moral mudou muito. Como é possível um licenciado em ciências sociais não dominar o português? Ou, alguém da área das ciências naturais não saber matemática? Ou um magistrado judicial aplicar a "lei positiva" quase como um computador, de forma mecânica, sem o necessário espírito crítico e conhecimento profundo da natureza humana? Outrora, era impensável alguém habilitado com uma licenciatura cometer um erro ortográfico... Preciosismo meu, dirão alguns! Além de ser grave em si o facto de um português não dominar basicamente a sua própria língua, possivelmente estarão escondidas outras lacunas em disciplinas bem menos conhecidas...

Este tema é demasiado vasto e importante para ficarmos por aqui, pelo que voltaremos a ele.

Alguns artigos recentes que li tocam, sob várias perspectivas, neste assunto:

"O Milagre" - Artigo de opinião de António Barreto, editado pelo Público de 02/11/08, que se interroga sobre a súbita melhoria geral de classificações no espaço de um ano... ("limpar o lixo para debaixo do tapete" é bonito nas estatísticas, mas compromete o futuro...)

"Falta-lhes Filosofia, meus senhores!" - Comentário de Carlos Morais, publicado pelo Diário do Minho de 01/11/08, à falta de "formação integral" dos actores do sistema judicial (toca na impreparação dos juristas nos aspectos "parajurídicos" da suas actividades judiciais)

http://dn.sapo.pt/2008/11/02/opiniao/dias_contados.html - Texto bastante irónico de Alberto Gonçalves. Confusões conceptuais, facilitismo e ainda mais...

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