Não, este artigo não vai falar da influência da imagem no mundo hodierno. Esse tema já é sobejamente conhecido. A esse respeito dedicarei um post específico comentando um livro muito pertinente e que me pôs a reflectir: "Homo Videns" de G. Sartori.
Neste artigo vou falar um pouco da minha imagem, da minha forma de me apresentar, em particular aquilo que visto, calço ou uso, e o que me levou a fazê-lo. É bom reflectir sobre estas banalidades de vez em quando!
Que me conhecesse há muitos anos atrás, na década de oitenta e parte da década de noventa, via alguém muito despreocupado com a roupa ou o calçado que veste. Despreocupado, entenda-se no sentido que não valorizava marcas, o design ou sequer a qualidade do produto. Talvez pelo exemplo parental, havia coisas mais importantes para mim e v(est)ia a roupa de forma meramente utilitária.
De 82 a 88 andei no Colégio Paulo VI, em Braga, dois anos no ensino pré-primário e quatro no primário, sempre com a tradicional bata às riscas que dava uma imagem uniforme e nos protegia nas traquinices da idade...
Depois fui para a Esc. Preparatória André Soares e para a Esc. Secundária D. Maria II, deixei de usar a bata mas continuei "despreocupado" até meados dos anos 90, já perto da maioridade. Nesses últimos anos do "Liceu" estavam muito em voga os vários estilos consoante o grupo. Lembro-me concretamente dos "metaleiros" ou dos "betinhos", que usavam a sua imagem para exprimir a sua pertença a um determinado sub-estrato, muitas vezes conotado com os ídolos de adolescência, em virtude da maturação psicológica não estar ainda concluída.
Por preocupação com a imagem e por convívio com amigos que a cultivavam, comecei a trajar de forma mais clássica (camisola, calça de sarja e sapato de vela ou de pala) e assim fiquei quase dez anos, até há poucos anos atrás... Usava também um clássico e sóbrio "Festina" como relógio de pulso e nada de anéis, pulseiras ou fios de qualquer tipo... O cabelo sempre oscilou entre o curto e o menos curto, nada de cabelo rapado ou cabelo comprido, sobriedade acima de tudo.
Quando vim para a TLCI, em 2004, era obrigatório usar fato e gravata, algo que eu considerava demasiado formal para quem trabalha numa simples loja de telecomunicações, pretendendo a TMN dar uma imagem requintada da sua cadeia de retalho, à semelhança da banca, seguros ou lojas de marcas exclusivas.
Em Setembro de 2005, a imagem muda para a actual. É importante relançar a relação de proximidade com o cliente e captar clientes entre a juventude. Passamos a vestir a t-shirt "literal", ou seja, não só tem forma de T como também tem parte de um T branco em fundo azul, antecessora da actual. O famoso "até já" é adoptado e estampado nas nossas costas. Mas a indumentária fornecida pela tmn (agora o logótipo escreve-se em minúsculas) restringe-se às T-shirt's e casacos, competindo ao assistente utilizar calças de ganga (tipo Levis 501) e sapatilhas, preferencialmente brancas, compradas por si.
E agora? Eu não vestia umas calças de ganga há dez anos... sapatilhas? Brancas?? Que é isso? Tinha umas sapatilhas que ocasionalmente usava para fazer exercício e outras que comprei para uma viagem à Polónia onde teria de andar muito... Foi necessário fazer compras e, dado o conforto da utilização de sapatilhas, rapidamente troquei os habituais sapatos, mesmo quando não estava a trabalhar.
Confesso que, naturalmente, não sou grande fã das calças de ganga. São resistentes? Sem dúvida! Mas não são o tecido mais agradável ao toque ou à vista. De qualquer forma, nestas questões o hábito é algo muito forte e foi-me impondo uma utilização extra-profissional, rejuvenescendo e "banalizando" a minha imagem. O "Festina" também encostou, expurgando assim o último adorno da minha pele...
Creio que a nossa sociedade vive demasiado da imagem, das aparências... Eu sou exactamente a mesma pessoa, com a mesma dignidade, mas é curioso notar o olhar e tratamento dos outros quando ando de fato, de "estilo clássico" ou de aspecto desportivo. Continuamos a julgar e descriminar o próximo pela raça, religião, profissão, roupa, automóvel e afins, ao invés de nos abstermos de os julgar ou, quando muito, os classificarmos pelo seu valor intrínseco. (essencialmente moral, mas também intelectual, artístico, desportivo, profissional ou de outras categorias relevantes)
Essa preocupação excessiva do português com a sua imagem, bem patente na tónica que coloca em possuir (muitas vezes acima das suas possibilidades) está relacionada com uma mentalidade medíocre, mesquinha, medrosa da opinião dos outros logo pouco ousada, insegura de si mesma, típica de pessoas incapazes de se afirmarem pelo seu próprio mérito. Como é possível ver tanto carro germânico nas nossas ruas, quando, como dizia a minha amiga Chara, "you can't afford them!". Para quê tanto portátil ou PDA em mãos que nem 5% das suas capacidades exploram mas insistem em colocar em cima da mesa da explanada para português ver? Ou porque é moda ter!
Volto ao tema só para concluir que nesta vida não costumo dar demasiada importância àquilo que julgo que não a tem. E a "moda", para mim, é uma delas porque trata da forma, não do conteúdo. Obviamente que tento adequar o estilo à ocasião, mas tento sempre passar despercebido (sem piercing's, tatuagens ou outros que não aprecio embora não tenha nada contra quem os aplica) e usar algo que reconheça como confortável. Este mundo comporta tantas dimensões importantes, para as quais gosto de ter as minhas regras, que não vou ser rígido ou excêntrico em vestuário ou adornos...